14 anos depois...

9 comentários
... e então eu fazia tranqüilamente uma prova de Matemática, eu acho... Naquela época, eu não tinha muito trabalho com Matemática. Eu era, na verdade, até bastante bom com as Ciências Exatas e da Terra. Até entendia alguma coisa de Químia e adorava Física. Disso tudo, hoje em dia, só restou o gosto pela Física. Mas eu não entendo mais nada. Custo a entender as palestras que vejo no TED... Sabia que mais de 100 bilhões de neutrinos atravessam o seu cérebro a cada segundo? Pois é! Você consegue imaginar isso? Eu não. Na verdade, eu mal-mal consigo imaginar aquelas equações de segundo grau que eu fazia na oitava série. E eu era bom naquilo; não o melhor da sala, claro que não, mas era suficientemente bom para que um dos coleguinhas da sala pegasse a minha prova e a prova de outro coleguinha nerd (que, naquela época, éramos chamados de "CDFs") e, ao ver que as respostas diferiam, indignar-se com a senhora que nos vigiava enquanto fazíamos a prova. A solução que ele encontrou naquele momento foi pegar a prova de um terceiro aluno e fazer melhor de 3...

* * *

... e então eu dava um disquete pra minha chefa. Disquete! Lembra? Se você lembra, se você já usou disquete, você 'tá ficando velho. I don't want to be the one to break the news to you, mas você 'tá ficando velho. Disquete que, no meu caso, ainda eram dos pretos. Seria só no segundo grau que eu viria a comprar uma caixinha com disquetes coloridos, la crème de la crème da moda informática, daqueles que a Angela Bennett usava. Pois é. Naquele disquete estavam as minhas contribuições para o jornal da sala. Ela editava o jornal, num Word 6 que cabia em 6 disquetes de 3 1/2". Num disquete daqueles cabia 1,38MB de informação! O meu HD externo, que já está obsoleto, suporta 240 mil vezes mais informação que aquele disquete...

* * * 

... e então, num dos últimos dias de aula do primeiro grau (que hoje em dia se chama Ensino Básico), ela me perguntou quem eu achava que era a menina mais bonita da escola. Estávamos lá em cima, sentandos em alguns degraus perto das quadras de basquete e de peteca. Sempre que eu estava perto dela, eu ficava nervoso. Lógico que eu a achava a mais bonita do colégio. Agora, re-pensando sobre aquele episódio, eu imagino que ela desconfiasse que eu gostava demais dela. Ela era, na verdade, a mais linda de todo o universo que eu conhecia. Claro que eu conhecia muito pouco do universo naquela época... Mas ainda assim: ela era (e ainda é!) fisicamente linda; contudo, o quê realmente me deixava boquiaberto, atônito, suando, gaguejando perto dela era a inteligência dela. Aquela desenvoltura na hora de falar, aquela iniciativa, aquela segurança na hora de discutir... Mas já naquela época eu era um cagalhão e acabei falando que eu achava uma outra menina a mais bonita da escola...

* * *

... e então lá estava eu na minha primeira viagem sozinho. Ia para Camboriú, na minha até hoje única viagem ao Sul do Brasil. Agora que eu penso sobre isso, lembro que eu já estive no Norte do Norte do mundo, mas o mais ao Sul do mundo que eu já fui foi Camboriú. Estávamos no trenzinho que dava a volta pelo parque do Beto Carreiro. Ela e eu, sozinhos no diminuto vagão. Foi num dos túneis que eu toquei a mão dela e tentei aproximar-me um pouco, porque naquela viagem de mais de 18 horas por três estados tinha despertado em mim uma grande afeição. Ela era um ano mais nova que eu e quando se tem 13 anos, isso é uma diferença descomunal. Ela se assustou e disse "o quê é isso?". Incrível como 10 anos depois, uma outra moça me disse a mesma coisa enquantos víamos a "Morena" em Sabará e eu tive a mesma reação de soltar a mão, reprimir os sentimentos na gaveta mais inacessível do meu subconsciente e seguir a vida como se aqueles dois dias nunca tivessem passado...

* * *

... e então teve uma vez que fizemos uma peça de teatro. Eu sempre odiei peças de teatro. Tinha medo d'essas pessoas que atuam muito perto da gente, que te podem tocar. Então que na produção da peça eu fiquei responsável pelos convites. Era um peça baseado num cordel e lembro que fizemos uns convites bem legais. Naquela escola tínhamos projetos assim, legais. Como sempre eram os das aulas de organização industrial (era assim que se chamavam?) em que trabalhávamos com processos administrativos. Ou quando tínhamos aulas de argila ou fazíamos desenho queimando madeira ou jogávamos alguma partida importante no ginásio gigante da escola. Ou quando fizemos o projeto da feira de ciências e eu comandei o grupo que fez um pequeno modelo do sistema solar...

* * *

... e então teve aquela vez que dividimos a turma e dois mandos, deitamos as carteiras tal qual sacos de areia numa trincheira da II Grande Guerra, e munidos de gominhas de elástico e cartelas de aposta da Sena (que nem era Mega naquela época) começamos a disputa pela sela de aula. Eu lembro que os bandos tinham nomes baseados nos sobrenomes de dois dos nossos colegas de aula. Eu estava do lado da porta, eu acho... Mas bem que eu poderia estar do lado da janela - muita coisa se perdeu na minha memória preguiçosa. O negócio é que eu estava no bando da moça que essa noite foi a responsável por me fazer acreditar, uma vez mais, que tudo nessa vida é possível. Que a vida não está escrita, que para tudo nessa vida tem solução. Que podemos fazer da felicidade alheia a nossa. Que a mão invisível do Smith pode se aplicar à vida em geral. Que o Universo se encarrega de equilibrar tudo. Que a vida é linda, muito linda!

* * * 

São muitas memórias daqueles tempos. Tantas que seria necessário um blog dedicado exclusivamente a contar aquelas histórias. Tantas histórias, tanta gente que foi tão importante na minha vida e que faz 14 anos que eu não vejo. Gente que, apesar da distância, nunca sumiu da minha cabeça. E, pelo quê eu tenho visto nas últimas semanas, tampouco se esqueceu de mim. Agora o povo já tem família, já tem casa comprada, já tem uma carreira, já tem uma vida feita... Em 14 anos tudo muda, as coisas mudam, tudo é diferente. Tudo, menos o carinho que eu tenho por aquelas pessoas que ajudaram com que eu tivesse a melhor infância possível.

madri.de-madrugada.o-outono-já-se-faz-notar.muito,-muito-feliz

9 comments

Flávia Quinta-feira, Outubro 06, 2011

Ahhhhhhhhhhhhh que lindo, eu to aí!
Aqui, depois vou querer descobrir uns nomes aí que eu não to ligada hahaha.
SAUDADE demais... nossa escola era linda!

Raul Quinta-feira, Outubro 06, 2011

Verde!
Claro que você está! A minha primeira chefa e minha primeira afilhada estará para sempre comigo!
Beijo grande, Raul.

Mandi Domingo, Outubro 09, 2011

Muito bom cara!!!!

Xaviereflo Terça-feira, Outubro 11, 2011

Relembrar coisas de uma epoca assim e' muito bom. Como dizia Taide e DJ um :-) que tempo bom, que nao volta nunca mais!

Anônimo Quinta-feira, Outubro 27, 2011

Nossa Rau, lendo seu post me bateu nostalgia da época do SEBRAE tb... Era tudo de bom! Momentos bons que ficam na memória! Saudade de vc! Vem passear pra esses lados de ca! Bjos Camilinha

Anônimo Segunda-feira, Dezembro 05, 2011

Que massa Raul! Fique super emocionada cara! É bom saber, que assim como a Verde, também faço parte de todo esse contexto muito bem articulado por você! Parabéns! Me tocou de verdade! Sem nenhum tipo de clichê: ÉRAMOS FELIZES E SABÍAMOS!!!
Bjos carinhosos e saudosos...
Vanessa "Cretina"

Anônimo Sábado, Dezembro 10, 2011

Raul...quando você diz " a inteligência dela. Aquela desenvoltura na hora de falar, aquela iniciativa, aquela segurança na hora de discutir..." aí ficou fácil. Realmente ela estava anos luz a nossa frente quanto a desenvoltura. Se tivesse a opção "curtir" clicaria agora.

Abraços,
Thiago Brant

Anônimo Segunda-feira, Dezembro 12, 2011

Meu caro "Raulzito", saudades de você! Estou atônito com este maravilhoso texto. Agradeço por tantas boas lembranças! Espero revê-lo no próximo encontro. Um grande abraço.

Carlos Alexandre Moreira

Raul Segunda-feira, Dezembro 12, 2011

Meus caros!
Fico feliz que vocês tenham gostado do post! :)
Um abraço, Raul.

Postar um comentário